Um dia descobri…
Um dia descobri que queria ser escritora. Descobri que adorava exprimir o que sentia, escrevinhar letras, inventar histórias, dar lições de bons comportamentos (acho que todo aquele que escreve começa por contozinhos pseudo-morais na infância, não?).
Exacto, eu queria ser escritora. Escritora de palmo e meio a pensar em temas de livros e romances. A revirar os olhos a profissões “totós” como veterinárias ou professora. Até que me apercebi que não havia cursos de escritora. Então mas… como faria? E isso levou-me a outros pensamentos. Ser escritora? Em Portugal? Então resolvi ser escritora por vocação e tentar formação noutra coisa.
Um dia, então, descobri que queria ser jornalista. E a partir daí foi muito fácil. Secundário em humanidades, curso de Ciências da Comunicação. Depois começaram os problemas e outra vez a mesma pergunta. Jornalista? Em Portugal?
Actualmente não quero ser…uma profissão. Quero ser uma pessoa, quero orgulhar-me de quem sou. Não quero deixar-me levar por amorfismos. Quero levantar-me mais alto. Quero fazer algo que me deixe em paz e me leve esta impaciência por sentir que “algo está podre” não só no reino da Dinamarca mas um pouco por todo o lado. Parece que a globalização levou, entre outras coisas, as traições shakespearianas a todo o mundo.
Baseada nesta sensação, comecei a tentar ser mais do que palavras bonitas e começar a agir. Trabalhei para a Amnistia Internacional. E, admito, tinha uma visão muito ingénua e romântica sobre ONGs. Não fiquei decepcionada, ainda acho que as ONGs são essenciais para alertar consciências, ao nível do cidadão comum e ao nível político. Mas percebi que não era tudo cor-de-rosa.
Mas, primeiro, vou explicar o que era o meu trabalho na AI. Todos os dias vestia uma t-shirt (que, acreditem, é como ter na testa um sinal FUJAM DE MIM), pegava num cartão de identificação e numa pasta de documentação e ia com a minha equipa para algum lugar desta linda cidade. Depois, tentávamos abordar as pessoas, falar-lhes da AI e propor-lhes que fossem apoiantes, ou colaborando com as nossas acções ou através de um donativo mensal.
OK, por esta altura estão a pensar que eu me tornei numa daquelas chagas que vos perseguem nas ruas de Lisboa, que vos tentam impingir aldrabices e que só servem para vos fazer perder tempo. Enfim, a parte das aldrabices não é verdade. O resto depende da vossa paciência e consciência para os direitos humanos.
Vi de tudo um pouco. E o trabalho acabou por me afectar bastante. Porque acredito profundamente nos direitos humanos, acredito que todos devemos fazer o que pudermos para ajudar. Porque não me via como uma mera “vendedora” (odeio a palavra) e estava verdadeiramente embrenhada em, pelo menos, falar de algumas coisas que continuam a passar impunes neste mundo.
Escutei pessoas que compararam a mutilação genital feminina com o buraquinho na orelha para os brincos, que os pais fazem aos bebés. Ouvi pessoas a favor da tortura, desde que fosse “para os fazer falar”. Ouvi uma monárquica dizer-me que os monárquicos tinham uma educação superior à média das pessoas e que não precisavam de ouvir falar de direitos humanos no meio da rua. Vi pessoas fugirem de mim, chamarem-me nomes. Dizerem-me que ninguém os ajudava a eles. Dizerem-me que são as crianças que querem ser soldados.
O que custa ao trabalhar na rua pela AI não são as pessoas que não têm dinheiro para ajudar, pois essas podem ficar interessadas e ajudar os direitos humanos de outras formas. O que custa é o desinteresse, o egoísmo, a falta de tempo. Custa que ninguém queira deixar de olhar para o umbigo e, nem que seja apenas só isso, abrir os olhos para o que se passa no mundo.
“Sofri mutilação genital feminina aos dez anos. A minha defunta avó disse-me então que me iam levar perto do rio para executar uma espécie de cerimónia, e que depois me dariam muita comida. Como criança inocente que era, lá fui como uma ovelha para a matança.
Mal entrei no arbusto secreto, levaram-me para um quarto muito escuro e tiraram-me as roupas. Vendaram-me os olhos e despiram-me completamente. Depois, duas mulheres fortes levaram-me para o local onde seria a operação. Quatro mulheres com força obrigaram-me a deitar-me de costas, duas apertando-me uma perna cada uma. Outra mulher sentou-se sobre o meu peito para eu não mexer a parte de cima do meu corpo. Um bocado de tecido foi-me posto dentro da boca para eu não gritar. Depois raparam-me os pelos.
Quando começou a operação debati-me imenso. A dor era terrível e insuportável. Enquanto me debatia cortaram-me e perdi sangue. Todos os que fizeram parte da operação estavam meios bêbados. Outros estavam a dançar e a cantar, e ainda pior, estavam nus.
Fui mutilada com um canivete rombo.
Depois da operação, ninguém me podia ajudar a andar. O que me puseram na ferida cheirava mal e doía. Estes foram momentos terríveis para mim. Cada vez que queria urinar, era forçada a estar em pé. A urina espalhava-se pela ferida e causava de novo a dor inicial. Às vezes tinha de me forçar a não urinar, com medo da dor terrível. Não me anestesiaram durante a operação, nem me deram antibióticos contra infecções. Depois, tive uma hemorragia e fiquei anémica. A culpa foi atribuída à feitiçaria. Sofri durante muito tempo de infecções vaginais agudas.”
(www.amnistia-internacional.pt)
Um dia descobri que não queria ser como as pessoas que vagueiam por aí, indiferentes a tudo excepto ao seu conforto pessoal. Um dia descobri que podia fazer a diferença, mesmo em algo aparentemente pequeno. Acredito que a força está no plural.
Já não trabalho na AI. Mas agradeço toda a experiência, de me descobrir a mim própria, ao mundo, aos outros.
Por fim, uma palavra de apreço a todos os que conversaram comigo sobre direitos humanos, à chuva, ao vento, ao sol. Obrigada pela força e por compreenderem o trabalho da Amnisita. Nem podem sonhar o impacto que tiveram na minha ideia de humanidade.
Hoje descobri mais um pedaço do caminho da vida… Ninguém poderá descobrir mais do que isso, de cada vez.
Até à próxima…
O que nos torna únicos não é aquilo que fazemos de melhor para agradar os demais que nos cercam, mas sim a forma como tentamos expressar o nosso verdadeiro carácter, esse elemento único que dá forma e beleza à nossa individualidade enquanto ser humano.
Corto Maltese era um intrépido defensor das causas perdidas, mas não era por causa disso que deixava de ser o herói de gotas intermináveis de esperança que divagam num oceano de apatia.
Kambei Shimada (“Os Sete Samurais”) era considerado por todos como melhor general entre os generais, mas nunca tinha conseguido vencer uma batalha. Também ele lutava por causas perdidas e ao lado de quem tinha a justiça do seu lado mas não a força para vencer os poderosos.
Ambos agiam como tal… porque a sua consciência assim diziam que deviam actuar.
Maltese e Kambei são heróis fictícios e famosos, mas servem para honrar e relembrar os incontáveis heróis reais, mas anónimos, que todos os dias não se cansam de responder e enfrentar as coisas controláveis e incontroláveis deste mundo, dando uso ao seu carácter e convicções.
Se todos fossem iguais e alguns não lutassem pelo que outros não querem lutar, nada do que conhecemos hoje alguma vez existiria.
Não tenhas medo de ser tal como és. Apenas tens que responder perante ti própria e ser leal para contigo, quer estejas no papel de escritora, jornalista, astronauta, ou qualquer outra coisa deste mundo. E não te preocupes… nunca estarás só… terás sempre uma pequena multidão a teu lado.
Jota