Domingo, Maio 4, 2008

Balanço de uma vida

    Depois de uma conversa com o meu namorado, uma daquelas conversas estranhas de Messenger em que lidamos com palavras escritas a várias cores e bonecos amarelos como se fosse uma conversa de verdade, dei por mim a fazer um balanço mental da minha vida, ainda curta. O motivo? A evidente compreensão, por ambos, de que estamos em fases diferentes da vida. A conclusão do balanço? Simplesmente desastrosa…ou talvez não.
    Sempre fui a menina certinha, a croma da turma, a caixa de óculos, a feia, a crânio. São epítetos que nos marcam e que, de certa maneira, nos colam ao estereótipo e nos causam efeitos estranhos que a psicologia deve conseguir explicar perfeitamente, creio. Tudo foi mudando, com o tempo. Larguei os óculos por lentes de contacto e agora tenho pavor a estar na rua com as armações que me trazem tantas reminiscências. Larguei as roupas de miúda, largueironas e sem graça, por roupas de mulher e agora tenho pavor a sweats sem forma. Desde que fui para a faculdade tentei passar despercebida e, quando conheço mal os intervenientes na conversa, fecho-me em copas, deixo-me passar despercebida e tenho horror a quem é exuberante e me faz corar (sim, João, esta é para ti :P ).
    Descobri que a roupa que trago e as lentes de contacto não conseguiram disfarçar as minhas inseguranças, apenas se colocam como escudos de papel numa guerra de aparências. Descobri que se calhar é por isso que gosto de joguinhos de sedução e flirt, porque fui sempre rotulada de nerd e considerada muito pouco desejada, porque a atenção que quis tanto durante muito tempo só veio tarde demais.
    Para além disso, fiz sempre o que se esperava de mim. Melhor aluna da turma, com óptima média. Podia ter mandado tudo ao ar para que não me chamassem crânio, mas não quis arriscar o único aspecto da minha vida em que sabia que era quase perfeita. Se eu soubesse na altura o perigo das perfeições…
    Entrei no curso que queria, na faculdade que queria, sem nenhum risco. Passei quatro anos muito rapidamente, sem grandes doidivanices nem desaires, apenas com algumas (bastantes) faltas, por preguiça. Mas sempre com demasiado medo de arriscar. Quem me conhece sabe que eu era aquela que lia sempre os textos todos antes da frequência (mesmo que não tivesse ido às aulas), com medo de perder, once again, aquela coisa que eu tinha como certa. Nunca fiz cábulas na vida, não sei se por brio profissional se por medo de ser apanhada…
    Agora, olhando para trás, fazem-me falta as saídas ao fim-de-semana e as bebedeiras míticas da adolescência. E já não estou a tempo de as apanhar, não por falta de idade mas por falta de companhia. Está tudo a trabalhar, a poupar para o carro, a querer ser responsável…eu incluída!
    A conversa no Messenger fez-me pensar. Realmente não fui a jovem típica, realmente perdi muita coisa. No entanto, se não dá para voltar atrás, para quê lamentarmo-nos? Fui muito certinha, sim, mas aprendi muita coisa. Aprendi a deixar as alcunhas para trás (excepto o trauma com os óculos), aprendi a gostar das pessoas mais caladas e desajeitadas, a procurar conhece-las melhor numa festa cheia de gente. A dedicação aos estudos deu-me cabecinha para não seguir a maioria amorfa que não pensa na realidade social e económica dos dias que correm, deu-me uma opinião própria. E ler todos os textos na faculdade permitiu-me o estágio curricular dos meus sonhos. E tenho as melhores das amigas, o melhor dos “manos”, o melhor dos namorados (ai, ai tanta pieguice) devido às opções que tomei. Tal como as viagens ao passado, qualquer mudança poderá trazer efeitos desastrosos.
    Por isso, prefiro não me arrepender de nada. Não arrisquei, é verdade. Não levei uma vida boémia. O que importa? Hoje posso dizer que estou satisfeita por estar onde estou, não são todas as pessoas que podem dizer isso. E tenho toda uma vida (espero J
) para poder mudar o mundo, como quero.
    Sobre o passado, está lá, lá fica. O balanço tem os seus benefícios. Contudo é preciso não lhe darmos demasiada importância. Acho que vou seguir o conselho de alguém de ar lunático mas que, dizem, era particularmente brilhante. Tal como Einstein pensava, é preciso relativizar…

    Até à próxima…

Publicado por DayDreamer em 01:41:47 | Permalink | Comentários (2)