Sexta-feira, Maio 30, 2008

Um dia descobri…

Um dia descobri que queria ser escritora. Descobri que adorava exprimir o que sentia, escrevinhar letras, inventar histórias, dar lições de bons comportamentos (acho que todo aquele que escreve começa por contozinhos pseudo-morais na infância, não?).

Exacto, eu queria ser escritora. Escritora de palmo e meio a pensar em temas de livros e romances. A revirar os olhos a profissões “totós” como veterinárias ou professora. Até que me apercebi que não havia cursos de escritora. Então mas… como faria? E isso levou-me a outros pensamentos. Ser escritora? Em Portugal? Então resolvi ser escritora por vocação e tentar formação noutra coisa.

Um dia, então, descobri que queria ser jornalista. E a partir daí foi muito fácil. Secundário em humanidades, curso de Ciências da Comunicação. Depois começaram os problemas e outra vez a mesma pergunta. Jornalista? Em Portugal?

Actualmente não quero ser…uma profissão. Quero ser uma pessoa, quero orgulhar-me de quem sou. Não quero deixar-me levar por amorfismos. Quero levantar-me mais alto. Quero fazer algo que me deixe em paz e me leve esta impaciência por sentir que “algo está podre” não só no reino da Dinamarca mas um pouco por todo o lado. Parece que a globalização levou, entre outras coisas, as traições shakespearianas a todo o mundo.

        Baseada nesta sensação, comecei a tentar ser mais do que palavras bonitas e começar a agir. Trabalhei para a Amnistia Internacional. E, admito, tinha uma visão muito ingénua e romântica sobre ONGs. Não fiquei decepcionada, ainda acho que as ONGs são essenciais para alertar consciências, ao nível do cidadão comum e ao nível político. Mas percebi que não era tudo cor-de-rosa.

Mas, primeiro, vou explicar o que era o meu trabalho na AI. Todos os dias vestia uma t-shirt (que, acreditem, é como ter na testa um sinal FUJAM DE MIM), pegava num cartão de identificação e numa pasta de documentação e ia com a minha equipa para algum lugar desta linda cidade. Depois, tentávamos abordar as pessoas, falar-lhes da AI e propor-lhes que fossem apoiantes, ou colaborando com as nossas acções ou através de um donativo mensal.

OK, por esta altura estão a pensar que eu me tornei numa daquelas chagas que vos perseguem nas ruas de Lisboa, que vos tentam impingir aldrabices e que só servem para vos fazer perder tempo. Enfim, a parte das aldrabices não é verdade. O resto depende da vossa paciência e consciência para os direitos humanos.

Vi de tudo um pouco. E o trabalho acabou por me afectar bastante. Porque acredito profundamente nos direitos humanos, acredito que todos devemos fazer o que pudermos para ajudar. Porque não me via como uma mera “vendedora” (odeio a palavra) e estava verdadeiramente embrenhada em, pelo menos, falar de algumas coisas que continuam a passar impunes neste mundo.

Escutei pessoas que compararam a mutilação genital feminina com o buraquinho na orelha para os brincos, que os pais fazem aos bebés. Ouvi pessoas a favor da tortura, desde que fosse “para os fazer falar”. Ouvi uma monárquica dizer-me que os monárquicos tinham uma educação superior à média das pessoas e que não precisavam de ouvir falar de direitos humanos no meio da rua. Vi pessoas fugirem de mim, chamarem-me nomes. Dizerem-me que ninguém os ajudava a eles. Dizerem-me que são as crianças que querem ser soldados.

O que custa ao trabalhar na rua pela AI não são as pessoas que não têm dinheiro para ajudar, pois essas podem ficar interessadas e ajudar os direitos humanos de outras formas. O que custa é o desinteresse, o egoísmo, a falta de tempo. Custa que ninguém queira deixar de olhar para o umbigo e, nem que seja apenas só isso, abrir os olhos para o que se passa no mundo.


“Sofri mutilação genital feminina aos dez anos. A minha defunta avó disse-me então que me iam levar perto do rio para executar uma espécie de cerimónia, e que depois me dariam muita comida. Como criança inocente que era, lá fui como uma ovelha para a matança. 

Mal entrei no arbusto secreto, levaram-me para um quarto muito escuro e tiraram-me as roupas. Vendaram-me os olhos e despiram-me completamente. Depois, duas mulheres fortes levaram-me  para o local onde seria a operação. Quatro mulheres com força obrigaram-me a deitar-me de costas, duas apertando-me uma perna cada uma. Outra mulher sentou-se sobre o meu peito para eu não mexer a parte de cima do meu corpo. Um bocado de tecido foi-me posto dentro da boca para eu não gritar. Depois raparam-me os pelos. 

Quando começou a operação debati-me imenso. A dor era terrível e insuportável. Enquanto me debatia cortaram-me e perdi sangue. Todos os que fizeram parte da operação estavam meios bêbados. Outros estavam a dançar e a cantar, e ainda pior, estavam nus. 

Fui mutilada com um canivete rombo.  

Depois da operação, ninguém me podia ajudar a andar. O que me puseram na ferida cheirava mal e doía. Estes foram momentos terríveis para mim. Cada vez que queria urinar, era forçada a estar em pé. A urina espalhava-se pela ferida e causava de novo a dor inicial. Às vezes tinha de me forçar a não urinar, com medo da dor terrível. Não me anestesiaram durante a operação, nem me deram antibióticos contra infecções. Depois, tive uma hemorragia e fiquei anémica. A culpa foi atribuída à feitiçaria. Sofri durante muito tempo de infecções vaginais agudas.”

Hannah Koroma, Serra Leoa
(www.amnistia-internacional.pt)

Um dia descobri que não queria ser como as pessoas que vagueiam por aí, indiferentes a tudo excepto ao seu conforto pessoal. Um dia descobri que podia fazer a diferença, mesmo em algo aparentemente pequeno. Acredito que a força está no plural.

Já não trabalho na AI. Mas agradeço toda a experiência, de me descobrir a mim própria, ao mundo, aos outros.

Por fim, uma palavra de apreço a todos os que conversaram comigo sobre direitos humanos, à chuva, ao vento, ao sol. Obrigada pela força e por compreenderem o trabalho da Amnisita. Nem podem sonhar o impacto que tiveram na minha ideia de humanidade.

Hoje descobri mais um pedaço do caminho da vida… Ninguém poderá descobrir mais do que isso, de cada vez.

Até à próxima…

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Domingo, Maio 4, 2008

Balanço de uma vida

    Depois de uma conversa com o meu namorado, uma daquelas conversas estranhas de Messenger em que lidamos com palavras escritas a várias cores e bonecos amarelos como se fosse uma conversa de verdade, dei por mim a fazer um balanço mental da minha vida, ainda curta. O motivo? A evidente compreensão, por ambos, de que estamos em fases diferentes da vida. A conclusão do balanço? Simplesmente desastrosa…ou talvez não.
    Sempre fui a menina certinha, a croma da turma, a caixa de óculos, a feia, a crânio. São epítetos que nos marcam e que, de certa maneira, nos colam ao estereótipo e nos causam efeitos estranhos que a psicologia deve conseguir explicar perfeitamente, creio. Tudo foi mudando, com o tempo. Larguei os óculos por lentes de contacto e agora tenho pavor a estar na rua com as armações que me trazem tantas reminiscências. Larguei as roupas de miúda, largueironas e sem graça, por roupas de mulher e agora tenho pavor a sweats sem forma. Desde que fui para a faculdade tentei passar despercebida e, quando conheço mal os intervenientes na conversa, fecho-me em copas, deixo-me passar despercebida e tenho horror a quem é exuberante e me faz corar (sim, João, esta é para ti :P).
    Descobri que a roupa que trago e as lentes de contacto não conseguiram disfarçar as minhas inseguranças, apenas se colocam como escudos de papel numa guerra de aparências. Descobri que se calhar é por isso que gosto de joguinhos de sedução e flirt, porque fui sempre rotulada de nerd e considerada muito pouco desejada, porque a atenção que quis tanto durante muito tempo só veio tarde demais.
    Para além disso, fiz sempre o que se esperava de mim. Melhor aluna da turma, com óptima média. Podia ter mandado tudo ao ar para que não me chamassem crânio, mas não quis arriscar o único aspecto da minha vida em que sabia que era quase perfeita. Se eu soubesse na altura o perigo das perfeições…
    Entrei no curso que queria, na faculdade que queria, sem nenhum risco. Passei quatro anos muito rapidamente, sem grandes doidivanices nem desaires, apenas com algumas (bastantes) faltas, por preguiça. Mas sempre com demasiado medo de arriscar. Quem me conhece sabe que eu era aquela que lia sempre os textos todos antes da frequência (mesmo que não tivesse ido às aulas), com medo de perder, once again, aquela coisa que eu tinha como certa. Nunca fiz cábulas na vida, não sei se por brio profissional se por medo de ser apanhada…
    Agora, olhando para trás, fazem-me falta as saídas ao fim-de-semana e as bebedeiras míticas da adolescência. E já não estou a tempo de as apanhar, não por falta de idade mas por falta de companhia. Está tudo a trabalhar, a poupar para o carro, a querer ser responsável…eu incluída!
    A conversa no Messenger fez-me pensar. Realmente não fui a jovem típica, realmente perdi muita coisa. No entanto, se não dá para voltar atrás, para quê lamentarmo-nos? Fui muito certinha, sim, mas aprendi muita coisa. Aprendi a deixar as alcunhas para trás (excepto o trauma com os óculos), aprendi a gostar das pessoas mais caladas e desajeitadas, a procurar conhece-las melhor numa festa cheia de gente. A dedicação aos estudos deu-me cabecinha para não seguir a maioria amorfa que não pensa na realidade social e económica dos dias que correm, deu-me uma opinião própria. E ler todos os textos na faculdade permitiu-me o estágio curricular dos meus sonhos. E tenho as melhores das amigas, o melhor dos “manos”, o melhor dos namorados (ai, ai tanta pieguice) devido às opções que tomei. Tal como as viagens ao passado, qualquer mudança poderá trazer efeitos desastrosos.
    Por isso, prefiro não me arrepender de nada. Não arrisquei, é verdade. Não levei uma vida boémia. O que importa? Hoje posso dizer que estou satisfeita por estar onde estou, não são todas as pessoas que podem dizer isso. E tenho toda uma vida (espero J
) para poder mudar o mundo, como quero.
    Sobre o passado, está lá, lá fica. O balanço tem os seus benefícios. Contudo é preciso não lhe darmos demasiada importância. Acho que vou seguir o conselho de alguém de ar lunático mas que, dizem, era particularmente brilhante. Tal como Einstein pensava, é preciso relativizar…

    Até à próxima…

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Sexta-feira, Abril 25, 2008

Rui Moreira…

O seguinte texto é da minha autoria e não pode, de maneira nenhuma, ser atribuído à Lusa, apesar de manter a forma de texto da Agência. Trata-se de uma homenagem a um grande homem que se foi embora cedo demais…


Lisboa, 25 Abr (Lusa) – A ex-estagiária na agência de notícias Lusa, Marisa Figueiredo, lembrou hoje, com saudade, os ensinamentos que o seu editor, Rui Moreira, lhe prestou durante a sua formação na agência, três dias após a morte deste.

“Nunca se esquece o primeiro editor, principalmente quando falamos do Rui, com os seus incentivos e o sorriso sempre pronto. O mundo está mais pobre, principalmente o jornalismo”, comentou Marisa Figueiredo, asseverando o seu choque perante a notícia repentina do óbito.

“Tenho pena de não lhe ter chegado a dizer como ele foi tão importante para a minha formação. Entrei na Lusa com certezas académicas, saí de lá com dúvidas jornalísticas. E com o olhar faíscante do Rui, a aparecer por detrás das lentes dos óculos, como recordação”.

A antiga estagiária, que foi colocada na secção de União Europeia dirigida por Moreira, acrescentou que “o Rui era um excelente profissional, um editor que se preocupava com os estagiários, os ensinava realmente, apesar do stress diário. Mas, mais do que isso, ele fazia-nos rir com o jeito bem-humorado de ver a vida”.

Rui Eduardo da Silva Moreira, de 46 anos, morreu no dia 22 de Abril, vítima de acidente vascular cerebral.

Editor em funções da secção Internacional da Lusa, cargo que ocupou depois do encerramento da mini-editoria União Europeia, no fim do ano 2007, Rui Moreira iniciou-se no jornalismo em 1983.
 

MZF.

Lusa/fim

Rui, foste um grande professor. Vi comentários de amigos teus, de reacções à tua brusca partida e dá para ver que a minha primeira impressão se confirma: és um grande homem (não, não vou usar o passado).

Gostava que esta notícia tivesse sido editada por ti. Irias corrigir-me subtilmente, com um grande sorriso? Ou perdoar-me a fuga a algumas regras, por motivos de força maior? Fazes falta. À tua família – as minhas condolências –, aos teus amigos, ao jornalismo, à Lusa, aos estagiários que por lá irão passar. Espero que, onde quer que estejas, haja Cutty Sark com muito muito muito gelo.

Publicado por DayDreamer em 01:03:18 | Permalink | Sem Comentários »

Domingo, Abril 20, 2008

“A geração dos 500″

“So give them blood, blood
Gallons of the stuff
Give them all that they can drink and it will never be enough”

                                                                      

Blood, My Chemical Romance


 

“É um dado comprovado que a seca em Espanha (por evidente falta de chuva), tenta competir com o nível de precariedade laboral que se vive junto dos recém-licenciados da Tugalândia, ou seja: agudiza-se a cada dia que passa. O problema da falta de água é uma tragédia guardada para o futuro que todos concordam em reconhecer como um perigo real para a subsistência humana, mas parece que vai demorar muito tempo até reconhecerem como drama outros problemas também relacionados com o futuro: a do garante do próprio futuro, os jovens.”

Jotalobato.blogspot.com

 

Estou empregada. Tenho um contrato renovável (a prazo, é certo, mas o normal para primeiro emprego). Tenho direito a férias e alguma segurança. Não passo recibos verdes. Só fiz um estágio não-remunerado e mesmo esse era obrigatório a nível curricular. Mas pertenço à geração dos 500 euros, como o jornal Público apelidou a semana passada.

Não tenho dinheiro para sair da casa dos meus pais, não tenho dinheiro para luxos (sejam eles grandes ou pequenos) e nem ouso pôr-me com grandes exigências, ou não vão os pais fartarem-se de me sustentar ou o patrão contratar outra que lhe saia mais barata. Não sei quanto tempo levarei a ter uma vida independente, mas estamos a falar de anos e anos. E não sei se esta semi-estabilidade de que falo durará muito tempo. Provavelmente não. Venho de uma geração que trata os recibos verdes por tu e que vê nos estágios não remunerados a longo prazo uma maneira de ganhar experiência e um lugar na área de emprego desejada (que muitas vezes acaba por não chegar). Venho da geração que faz um ou dois ou três part-times para esticar o pouco que ganha. Venho da geração que é licenciada e não tem emprego, que trabalha em caixas de supermercado e em call-centers. Venho da geração a quem os nossos pais deram tudo para que tivéssemos uma vida melhor, mas a quem o nosso contexto politico-económico deixou sem esperança de futuro certo. O meu pai está há cerca de 30 anos no mesmo local de trabalho. E eu, a quem me pagaram estudos superiores? Não me parece que o iguale.

Até tenho sorte, vendo bem o panorama e todos os meus amigos. E “sorte”, neste mundo de cão, é um termo bem empregue. “Sorte” porque é um acaso, é fora da norma. Sorte porque a maior parte dos recém-licenciados actuais não tem emprego na área ou, quando o tem, vive em regime de precariedade. Porque teremos nós de provar o nosso valor pessoal durante anos e anos sem remuneração adequada? Os nossos chefes vão admirar mais a nossa dedicação por termos trabalhado à borla meses e meses? Ou apenas nos chamarão otários e continuarão a acenar com a cenourinha de uma futura integração na empresa?

Estou farta, perigosamente farta de tudo o que vejo. Estou farta de ver amigos meus a trabalharem melhor do que colegas seus efectivos para depois os mandarem embora. Estou farta de ver a obrigatoriedade de estágios não remunerados consecutivos como meio de entrada “oficial” para ter um emprego. E estou farta das pessoas que me aconselham a completar mais um estágio não-remunerado para ter mais hipóteses de fazer o que eu realmente gosto: jornalismo. Não, eu não quero ter mais estágios, não quero ser mão-de-obra útil mas disfarçada como “estagiária”. Já me chamaram de snob. Simplesmente não tenho condições económicas para o fazer, nem condições políticas para o aceitar.

Sobre isso, alguém me disse recentemente que se um recém-licenciado não tem condições económicas para aguentar muitos meses em regime não-remunerado, mais valia que não tirasse um curso superior, em primeiro lugar. Sabem o que isto é? Uma cuspidela a quem se mata a trabalhar durante quatro anos (agora três, com Bolonha) para seguir a sua verdadeira vocação. Uma bofetada a quem acredita que os melhores profissionais são aqueles que têm vocação e não aqueles que têm dinheiro. Um insulto vergonhoso à democratização do ensino. Não vamos voltar a esse tempo em que a educação universitária era para as elites, por mais que nos queiram obrigar (e aqui entra também a questão das propinas, que deixo para outro dia).

Eu não acredito que devamos todos entrar na onda de que são necessários estágios não-remunerados consecutivos e recibos verdes para fazermos a distinção de quem tem valor ou não. Porque isso só vai reflectir as condições económicas de cada um. Quem não tem condições de viver na precariedade laboral a baixos salários vai sempre preferir um call-center na área da banca, por exemplo. Até porque não é questão de preferir mas sim de sobreviver. E assim se perde um excelente profissional na área em que foi formado.

A geração dos 500 euros é uma VERGONHA nacional e mundial. Vergonha porque estão a humilhar os jovens forças motores deste país, vergonha porque os estão a espezinhar e a faze-los entrar numa lógica de fazer tudo para receber o ordenado ao fim do mês. Olhem para um qualquer escritório e digam-me quem fica lá até mais tarde: é o pobre coitado que tem medo de ser despedido de um dia para o outro e, portanto, fica a fazer o trabalho do efectivo.

No fundo, o problema gira em torno de três eixos. O eixo do patronato, que com baixos ordenados e ausência de contratos consegue mão-de-obra barata e atemorizada. O eixo da geração anterior à nossa, que vê em nós uns fedelhos mimados que não param de se queixar. E o eixo dos recém-licenciados, o nosso eixo, que acreditam que é preciso submeter-nos ao que seja preciso e deixar-nos ir na maré. E se não nos deixarmos ir?

Por fim, deixo-vos com um excerto do Público de dia 15 de Abril:

“Cerca de 28 por cento da população activa em Portugal são trabalhadores por contra própria (1186 milhões) e contratados a prazo (684 mil), segundo os dados para 2007 do Instituto Nacional de Estatísticas. Uma fatia de mais de um quarto da força de trabalho que forma o precariado português e que não se sente representada nas formas clássicas de representação social dos trabalhadores, os sindicatos e os partidos.
Em alternativa, os precários portugueses começam a ensaiar novas forma de organização, através de grupos de pressão. Há já quatro desses grupos - FERVE - Fartos de Estes Recibos Verdes, Precários Inflexíveis, Intermitentes do Espectáculo e ABIC - Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ver fichas) - que, à excepção da ABIC, estão organizados no movimento May Day, o qual se manifesta, desde 2007, num bloco independente do desfile do Primeiro de Maio.

(…)

A ‘geração 500 euros’
Vivendo da organização em rede e das potencialidades que nesse domínio as novas tecnologias da comunicação, em especial a Web, proporcionam, estes grupos de pressão representam sobretudo os jovens precários ou aquilo que já se convencionou chamar “a geração 500 euros”.
Porém, ao contrário da restante Europa, a especificidade da situação portuguesa é este vínculo ser amplamente dominante também nas gerações mais velhas, mulheres que regressam ao mercado de trabalho após terem filhos e desempregados de curta, média e longa duração que também voltam à condição de empregados.
Por outro lado, ao lado dos precários, há ainda sem representação social toda a faixa de trabalho clandestino que não está representada nas formas clássicas.
Professor do Departamento de Sociologia do ISCTE e investigador do CIES, antigo secretário de Estado, actual conselheiro especial do ministro do Trabalho e autor do Livro Branco e do Livro Verde do trabalho, António Dornelas lembra que “20 por cento do PIB é economia paralela” e que para além do trabalho precário registado há todo um mundo de subemprego não registado, pois os falsos recibos verdes, mesmo ilegais, são declarados às finanças.”

Até à próxima…

Publicado por DayDreamer em 22:24:16 | Permalink | Comentários (1) »

Terça-feira, Abril 8, 2008

Update on myself… (ou a Mania dos Títulos em Inglês)


Falhei na promessa…


Não escrevi nada “em breve”, naquele Novembro de 2005. Pior, deixei que o espírito orientador e (porque não?) castrador da faculdade, onde nos regemos pelas pautas de pensadores consagrados do status quo, me colocasse as palas do estudo empinado. Durante quatro anos li e reli grandes teóricos da comunicação e “esqueci-me” do mundo. Esqueci-me de investigar a sociedade que nos cerca e a psicologia de nós próprios. Deixei para outros momentos o aprofundar dos grandes temas políticos e sociológicos para semi-papaguear autores em frequências e trabalhos académicos.

Depois acabei a faculdade. Acabaram-se as cadeiras fantasiosas de algumas pessoas que gostam de estar estanques no seu aquário. Acabaram-se os auditórios onde se ouviam longas exposições monocórdicas, raros debates. E surgiu a esperança,  a mesma esperança de cada um dos milhares de recém-licenciados verdinhos que todos os anos saem das universidades em Portugal. A eterna idiotice de esperar um emprego certo, mesmo à medida dos nossos sonhos. Bem, não preciso de adiantar mais sobre o rebentar da bola de sabão…

Assim, após desviar os olhos de matérias especificas, vendo o mundo como quem o vê pela primeira vez, desiludi-me. As injustiças cometidas em nome de um capitalismo pedante tornaram-se insuportáveis aos meus olhos. E aquele idealismo cego, que nos enche o peito enquanto jovens, foi-se esvaziando aos poucos e poucos, até se tornar um pontinho preto minúsculo, uma partícula sub-atómica de mágoa. “Não consigo mudar o mundo”, admiti, derrotista, ao ver a desigualdade entre gomos da mesma laranja e a impunidade de todo um sistema. “Não tenho força o suficiente”, afirmei, ao ver jovens, como eu, escravizados, subjugados e prostrados perante a força dos recibos verdes.

Não sei como mudei de opinião. Porventura porque o estado do mundo me tenha mesmo feito pena. Porventura porque na minha cabeça tomei consciência que toda a minha roupa está marcada por lágrimas, suor (e talvez um pouco de sangue) de homens, mulheres e crianças iguais a mim, com fados diferentes. E não tive coragem para encolher os ombros e desistir. Mesmo que tu desistas também. Posso não mudar o mundo, nem sequer aplicar-lhe pensos rápidos, mas não vou seguir o caminho fácil da indiferença.

Talvez a faculdade tenha tido um papel mais relevante do que preparar-me em termos profissionais, afinal. Talvez me tenha dado alguma consciência como individuo, não tanto pelos professores à margem da estrada do mundo (a maioria deles, salvaguardando as doces excepções no meu coração), mas sim pelas leituras opinativas que fiz de certos textos, pelas conversas no bar da faculdade, por me afogar tanto em especificidades que me fizeram querer respirar por mim própria.

Agora, com o update de mim, talvez se justifique a longa ausência da blogosfera. Afinal, estive em processo de auto-descoberta. Há melhor perda de tempo do que esta?

Até à próxima… (desta vez sem prometer nada)

Publicado por DayDreamer em 23:48:12 | Permalink | Sem Comentários »

Quarta-feira, Novembro 2, 2005

Fénix

Bem, andei remetida ao silêncio nestes últimos tempos… sem vontade nem energia para postar algo de novo. Enfim, a faculdade toma-nos tempos preciosos e a preguiça ainda mais.

Tanto tempo se passou desde estes random thoughts do post anterior. Já ando mais optimista, mais…alegre. O truque é não pensar, não extrapolar, não problematizar. O segredo é não pensar nas nossas falhas, não cair em exageros sentimentais… é aprender a relativizar.

A montanha-russa da vivência, contudo, não passou. Custa muito ser feliz de dia e infeliz à noite, na escuridão, onde os mais pessimistas pensamentos se debatem, se guerrilham, para ver qual deles me faz chorar. Custa muito chorar, para passado uns minutos sorrir, para passadas umas horas chorar outra vez. Mas a vida continua…só queria que a instabilidade não fosse estavel e desaparecesse da minha almofada.

Novos amores? O amor à vida! Porque os outros continuam sempre os mesmos. É estranho, tanta capacidade para amar…nenhuma para odiar. Não era suposto os dois sentimentos serem irmãos?Ou será que a vida expressa em impulsos inconstantes e fugazes me tirou completamente a capacidade de sentir a longo prazo?Se assim é, porque continuo a amar?

Novas letras? As do livro de marketing =( frequência amanhã! Quanto às mais literárias, encontram-se em stand-by, tanto as lidas como as escrevinhadas em horas mortas sob páginas mortas.

No campo político, estão todos em guerrilhas abertas (são quase pior que os meus pobres pensamentos nocturnos), mas tudo me passa um pouco ao lado. À semelhança de outras eleições, todos os eleitores vêem com alívio o dia da ida às urnas, como o fim do massacre diário às nossas inteligências. Candidato escolhido? Já tenho um de coração mas não sei até que ponto a máquina de marketing por detrás o conseguirá pôr com a maior quota de mercado (exacto, o livro de marketing anda a pôr-me o pensamento mais pragmático…o que só pode ser considerado uma vantagem face à miscelânea de sentimentos que cá moram habitualmente).

Por agora fico por aqui…mas com esta vontade renascida de escrever, de certeza que vou postar novamente em breve (sim, sim é uma ameaça :P ) Até à próxima…

Publicado por DayDreamer em 11:21:41 | Permalink | Comentários (1) »

Sexta-feira, Maio 20, 2005

random thoughts

Comentaram que a solidão é bom. Eu não gosto… quando fico sozinha penso de mais (e sou como Fernando Pessoa, que quer ser como o gato feliz e instintivo que não pensa). Não é propriamente um crime pensar de mais, mas problematizar excessivamente a existência nunca fez muito bem ao amor-próprio de alguém.

Estou em momentos dificeis, daqueles que nos fazem suspirar por um pouco de coragem…só um pouco… para enfrentar a luminosidade ardente do sol a bater-nos na cara logo de manhã. Coragem para me levantar, coragem para sair, coragem não para viver mas para sobreviver. E, por enquanto, tenho coragem, mas estremeço só de pensar no dia seguinte. A dor é tão universal e tão subjectiva… e quase nunca nos lembramos dos outros no meio da nossa dor… ou será que é por nos lembrarmos que sofremos?

Tenho frio, aqui perdida nestas trevas. Só acontecem coisas más (quer dizer não são propriamente coisas terríveis, mas há tantos meses que não acontece nada de bom) e o mais frustante é que eu consegui ser feliz (são tão poucas as pessoas que se podem orgulhar disso) e estraguei tudo. Há algo no meu espírito que não me deixa ser feliz, acho.

Enfim, esta solidão não me anda definitivamente a fazer bem. Mas, será que faz bem a alguém?É um estado completamente anti-natura (e não a homossexualidade como tantos afirmam): a natureza do homem é comunicar e não aguardar na escuridão.

Estou confusa. O optimismo alguma vez valerá a pena?De que adianta pensar que vai tudo correr bem?E se depois tudo desaba, tudo se estilhaça em mil e dois pedaços de diferentes cores e sabores?Não será muito mais dificil de nos recompormos e colarmos os pedacinhos da vida se antes tivermos sido optimistas?Ao menos, se pensarmos no pior estamos preparados para ele.

Desculpem pela confusão de pensamentos. Até à próxima… (entretanto vou estar por aí a tentar sobreviver)

Publicado por DayDreamer em 11:31:14 | Permalink | Comentários (1) »

Quinta-feira, Maio 12, 2005

máscaras

My first post…. e não sei o que escrever. Tenho tanta necessidade de escrever que quando tenho a possibilidade encravo… ou quero encravar para não assumir responsabilidades por nada. Enfim, mas tenho que escolher um tema e desenvolver… que tal as nossas máscaras? Porque é que este mundo está tão dividido em fraternidades fortes nas quais queremos ser aceites mas ao mesmo tempo sentimos que não é lá o nosso lugar?Porque é que são estas fraternidades que ditam a nossa classe, o nosso lugar na sociedade? Porque é que para cada área de interesse queremos um grupo e, se não o conseguimos, sentimo-nos sozinhos?

Na realidade, o facto de sabermos que somos tão diferentes de qualquer outra pessoa, que temos uma personalidade (originalidade) própria devia ajudar-nos a não nos sentirmos rejeitados se não concordamos com alguém da nossa fraternidade, do nosso circulo social. Mas, ironicamente, acontece o oposto. Por nos sentirmos tão diferentes, temos um pavor exagerado de ficarmos sozinhos, solitários, a ver passar o mundo (o que até pode ter as suas vantagens na sociedade voyeurista de hoje… contudo queremos ver o mundo mas ao mesmo tempo ter a certeza que o mundo não se esquece de nós)… e envelhecermos assim, afundados na nossa originalidade sem ninguem para a compartilhar. Então, mascaramo-nos, maquilhamo-nos com os cosméticos da sociabilidade e estamos preparados para enfrentar o mundo, para agradar, para sermos aceites. Queremos tanto ser aceites! e quando finalmente o somos… não temos coragem para deixar cair a máscara, para não experimentarmos de novo o sabor amargo da solidão.

Custa-nos tanto estar sozinhos… e este mundo virtual é tão apelativo. Parece até que encontrámos novas irmandades, mas desta vez mais genuinas, porque não há necessidade de máscaras. Mas não haverá mesmo?Somos mesmo nós aqueles que comunicam num chat ou num blog? Então porquê a necessidade de nicks, as máscaras virtuais?Em sociedade, o nosso âmago, a nossa podridão, a nossa doçura nunca são revelados por completo (será que nós próprios conhecemos mesmo o nosso interior?Não teremos também uma máscara para nós próprios?). Precisamos constantemente de por barreiras ao nosso comunicar de experiências…mas se não fosse assim, poderia alguma sociedade conseguir sobreviver?

Até à próxima…

Publicado por DayDreamer em 18:44:37 | Permalink | Comentários (1) »